UM VERÃO COMO OS OUTROS?

Nos tempos que temos vivido e que continuamos a viver, tudo nos parece menos real, mais adverso, mais carregado de tintas escuras, tempos, enfim, mais infelizes dos que a maior parte de nós estava habituada. Os mais velhos recordam uma infância perturbada por factos remotos ou quotidianos mais condicionantes. São os tempos dos que, em jovens, viveram as vicissitudes da 2ª guerra mundial e os reflexos, diretos ou indiretos, das turbulências geradas. Tempos de ditadura e de Polícia de Estado. Imagens e notícias de horror espalhavam-se com cadência própria por todos os países. Seguiu-se a crise económica mundial que só durante a década de 60 do século passado começou a ser debelada.

Mas este verão obriga-nos a pensar. Passaram anos de crise financeira, anos de crise Covid, anos de crise económica. Os amigos e familiares não se viram, falaram ao telefone ou, em muitos casos, “viram-se” no FaceTime. Será o mesmo? Não é. Anos com máscaras criaram, a todos, expectativas para o dia em que as máscaras fossem retiradas. O certo é que a vontade de fazermos coisas é maior, muitas vezes, que o ânimo ou as forças que temos para as fazermos. A cadência das informações que recebemos, ao longo destes tempos, não é a mesma do século XX. Agora é tudo instantâneo. Vemos, em direto, os ventos a agredirem algumas terras distantes; vemos o fogo a consumir milhares de hectares de terras mais próximas ou mais afastadas de nós; vemos a bombas cairem diretamente nos alvos melhor ou pior escolhidos; assistimos às explosões que nos embaciam os olhares e as almas; vemos as caras cínicas mas inexpressivas dos mandantes ou dos intermediários dessas fúrias destruidoras; espantamo-nos com a facilidade com que, deliberadamente, se mata; assistimos às negociações mais absurdas entre os grandes desta Terra para que navios cheios de alimentos possam sair dos seus portos e ir levar esses alimentos aos que deles precisam, sabendo-se que, a muitos deles, nada chegará a tempo; assistimos à derrocadas de toneladas de terras sobre gente paupérrima que, ou morre logo ou, com “sorte”, irá morrer mais longe.

E não se descobre forma de os tais “importantes” do planeta falarem uns com os outros, calma e educadamente, sobre o que é mais desprezível na humanidade: matar, a sangue frio, uma boa parte dessa humanidade. Isto já não é o “mundo cão” é o “mundo das alcateias”. Os loucos têm seguidores, aos milhares, e interrogamo-nos ao vermos, também em direto, as faces dos que sofrem, dos que ficaram sem nada, dos que vão morrer, só não sabem quando. De quem é a loucura? Dos loucos ou de nós próprios? É, claramente, a apologia do Mal.

Entremeando todos estes diretos assistimos, espantados, aos opinadores mais diletantes que falam sobre factos que se acham em condições de comentar. Para, no dia seguinte, dizerem exatamente o contrário do que disseram na véspera. É uma feira de vaidades, de vendilhões dos templos, de miseráveis sem conhecimentos a receberem interessantes avenças para nos “venderem” a defesa do indefensável. A Terra seca, a água escasseia, as temperaturas ultrapassam as piores previsões que os cientistas tinham previsto. É o clima! É a bolha que nós causámos, nós, os culpados de todas estas intempéries extra-temporais, de toda a poluição que corrói os mares e o mundo. Se somos nós, como parece, temos que nos redimir, temos que trabalhar e contribuir para a melhoria de tudo o que os poderosos estragaram.

Mas atenção: os juros sobem ou descem, as bitcoins entram pelas gretas das portas para gáudio de muitos. Afinal, se calhar, nada disto é assim tão complicado que impeça os tais oligarcas de se pavonearem por um mundo sem fronteiras, sem ética, sem poder. Há sempre quem ganhe com as desgraças. Se há guerras alguém tem que fabricar, aos milhares, as armas de combate, cada vez mais caras e sofisticadas. Se há epidemias alguém tem que fabricar, aos milhões, as vacinas protetoras. Os pingos da chuva engrossam mas os espaços entre os pingos também aumentam…

Mas toda esta banalização quotidiana do Mal transformou-se, realmente, na banalização e indiferença da plebe que deixa de olhar para as catástrofes com o mesmo interesse, até porque, em muitos casos, os pobres dos estagiários da comunicação, miseravelmente pagos e atirados para locais que não constam nas listas do inferno, coordenados por “operosos” “pivots”, vão balbuciando evidências repetidas, apontando para locais que todos já viram, para tentarem, coitados, um lugarzinho mais consistente a recibo verde, claro.

E esta banalização torna-se evidente nos percursos deste verão. As praias, os campos, as lagoas, as novas praias fluviais, os alojamentos locais despontam, como cogumelos, por todos os cantos do nosso país, no nosso e nos outros, e a tal plebe (na qual, naturalmente, todos nos incluimos) enxameia todos esses espaços, em percentagens e quantidades nunca antes previstas. Ao fim de dois anos de torturas quase medievais a plebe decidiu soltar-se, sair, partir para onde calhe, haja ou não voos cancelados ou carros de aluguer esgotados. É preciso espairecer, interromper as cadeias das mentiras ou das verdades, ganhar um pouco de fôlego para todos os males que, segundo todos os profetas, se aproximam e nos vão, de novo, medievalmente torturar.

Claro que com com este surto de gente a aparecer por toda a parte não há restaurantezeco que aguente, não há já emigrantes que consigam preencher todas as vagas que se oferecem e, claro, não se preenchem.

Vamos regressar, no fim do verão, aos estratos medievais de clero, nobreza e plebe. O clero anda com uns problemas difíceis, relacionados com a pedofilia, que não agradam à plebe. A nobreza continuará a desempenhar o seu papel de protetor da plebe, sugando-lhe o sangue e os impostos para remediar esta calamidade climática de que a plebe é, sem sombra de dúvida, a maior culpada.

Digam lá que este verão é igual aos outros. Não é. Só esperamos que não regresse a Inquisição!

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