Kuricutetela

Eram tempos que nada acontecia, ou pareciam nada acontecer. Os anos sucediam-se uns atrás dos outros, quase sempre iguais, onde o progresso pouco se fazia sentir. Portugal Continental, pouco tinha a oferecer a quem esperava alcançar melhores condições de vida, atirando quem tirava o seu curso, ou a quem se aventurava sair dos seus limitados espaços serranos, para uma emigração, nem sempre fácil e muitas vezes sem regresso. Não obstante a riqueza de África cativar os mais determinados para novas tentativas de vida, o Brasil continuava oferecendo as oportunidades de progresso num sistema a que muito poucos estavam habituados…! A democracia e a liberdade de expressão que por lá se vivia, era estranha a quem vivia longe da vida moderna e da imensidade de oportunidades de realização de antigos sonhos. Os países europeus, ainda a custo, começavam a revelar a sua dinâmica, aprontando-se à reconstrução das suas casas e dos seus monumentos, derrubados pela violência extrema de uma guerra estúpida, como todas as outras guerras, por o diálogo não se fazer valer. O equilíbrio económico e social voltava a florescer com mais força, mediante as aprendizagens obtidas com o sofrimento dos seus povos.
Portugal, de forma diferente, vivendo uma paz musculada, acompanhava de muito longe esse progresso, com monopólios e interesses a subjugarem a dinâmica das pequenas e médias iniciativas. Os Alvarás que condicionavam o desenvolvimento industrial, tornavam o país ainda mais restritivo e fechado com jogos de interesses que se formavam em reuniões à porta fechada. Entraves que atiravam por terra muitas iniciativas que pretendiam concorrer e ganhar novos mercados, elevando o país e acompanhando o desenvolvimento do resto da Europa, que viria a dividir-se em dois blocos económicos de livre circulação de produtos, como se via com a ideia da Europa dos Seis (Comunidade Europeia ), ou a forma que se tornou mais acessível à nossa tibiesa económica : a EFTA ( European Free Trade Association ).
África, nomeadamente Angola, tornara-se bem mais importante para Portugal, pelas necessidades que começava a ter, satisfazendo as exigências de um crescimento com compromissos de produção, perante a frequente oferta de trocas comerciais do pós guerra. A necessidade de matérias primas a par das oportunidades de negócios que aqueles territórios coloniais ofereciam, começavam a despertar o interesse de uma nova vaga de emigração. Como sempre, a emigração a colmatar um vazio de oportunidades a quem não estava preparado para as novas solicitações, de exigência bem mais elevada.
Ainda antes, a minha juventude desafiou-me a conhecer o mundo da forma mais abrupta que um jovem cheio de ideias poderia imaginar…! . Também queria conhecer melhor África. E Angola, estava ali tão à mão, como já o tinha feito com a ideia de viver no Brasil em 1949, onde obtive a carteira 19. Já tinha conhecido Lourenço Marques no regresso de dois anos de serviço militar na Índia Portuguesa, nomeadamente em Goa, e a passagem pela cidade do Lobito que me apaixonou, e me deu novo alento para uma nova aventura, se é que de aventuras se consegue viver.
Foi curta, essa estadia que me desiludiu de uma certa forma, não obstante a ter vivido da melhor forma e de a ter apreciado como um futuro país cheio de oportunidades. Novos amigos, que me rodearam e me acompanharam numa fraterna amizade, a eles, dedico este texto e o título tão cheio de sabor e do calor de África, que dois jovens tornaram conhecidos pela Europa de então, e que eu gostava muito de ouvir…! Kurikutetela, ! Uma das canções que o ritmo melhor transmitia a beleza daquelas terras quentes onde prevaleciam as plantações de café. …! Kurikutetela, ou o comboio, em linguagem kimbundo. Os Duo Ouro Negro, sabiam o que cantavam e como encantavam. Amigos já desaparecidos, Raúl Indípo e Milo MacMahon, de trato gentil e educado, com quem tantas vezes confraternizei nas festas do Rádio Club do Congo Português, e encontrei por várias vezes num Café do Rossio, em Lisboa. E conversámos…! E conversámos, contando aqueles momentos de uma esperança que ainda tentava prevalecer …!
Ficaram os sons das suas canções, além do ritmo doTwela, com Pata Pata, que algumas vezes cantaram com Miriam Makeba, e nos deixaram a imagem dos lamentos de áfrica, tão bem representados…!




Um pensamento sobre “Kuricutetela

  1. CARO RUI
    Gostei muito do seu texto, como gostei em tempos das canções do duo Ouro Negro. Era realmente um duo de OURO !
    Estive em Angola durante o serviço militar e no Lobito em 1975, em comissão civil ao serviço da FIMA, antes da independência. Foi uma estadia muito interessante, cheia de acontecimentos inesquecíveis.

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