O DIREITO DE ALTERAR O TEXTO

Ia começar um texto sobre a nova e extraordinária novidade de muitos e variados “grupos de pressão “ insistirem na necessidade de alterar ou corrigir textos de escritores famosos pelo facto de expressarem, nesses textos, ideias que hoje lhes parecem censuráveis, levando em conta as novas realidades globais e igualitárias relacionadas com género, sexo, esclavagismo e muitos outros conceitos naturalmente descritos ou abordados por tantos autores que lemos e se tornaram famosos. Desisti de escrever o texto e resolvi transcrever partes de um artigo com que Francisco José Viegas inicia o último número da revista LER. Eu não faria melhor, sem dúvida alguma, e a sua Carta do Editor merece, em minha opinião, ser lida na sua totalidade. Aqui fica a minha sugestão para que o façam.

Portanto resolvi respigar, com todo o respeito, passagens dessa sua Nota que traduzem de forma exemplar aquilo que penso e iria escrever de forma menos elaborada.

Num tumulto literário de uma universidade alguém que quis insultar Jorge Luís Borges gritou: “Borges está morto” ! A que Borges respondeu mais tarde: “É verdade. Estou morto. Estaremos todos mortos”. Claro que a esta anedota literária não são alheios os factos que vieram a verificar-se ao dizer-se que Sancho Pança era um cínico, o padre e o barbeiro da terra de Alonso Quijano lhe queimaram livros, João da Ega um troca tintas, Flaubert odiava a Humanidade, Oscar Wilde um misógino, Camilo era vingativo e tinha maus fígados, Hemingway um desbragado, Rousseau abandonou os seus filhos na roda da igreja e Roald Dahl era um racista carregado de homofobia, transfobia e machismo. E relembra-nos também J. K. Rowling, a autora da saga Harry Potter, acusando-a de transfobia, por ter dito o que lhe parecia sobre a distinção entre homens, mulheres e pessoas trans porque, para ela uma pessoa trans não era uma mulher. Em finais do ano passado o New York Times defendia que se retirasse o nome de J. K. Rowling das capas dos livros da série Harry Potter. Uma jornalista da área LGBTQ passou algum tempo a ler toda a obra e entrevistas da Rowling e declarou, em conclusão, que o abuso que tinha sofrido merecia mais do que perdão. Que vergonha para os que a incriminaram, incitando ao ódio

O desejo da correção linguística e ideológica não é uma novidade na história cultural do Ocidente. Está ligado a períodos de arrependimento, ressentimento e perda. Tudo o que ofende deve ser expurgado. Em março de 1983, o jornal francês Libération propôs que a ministra dos Direitos da Mulher (terceiro governo de Mitterrand-Mauroy) colocasse no índex o Pantagruel, de Rabelais, As Neves de Kilimanjaro, de Hemingway, Judas, O Obscuro, de Thomas Hardy, toda a obra de Kafka, a poesia de Baudelaire e, claro, Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Tudo provocação pública e ódio sexista. A ministra não cedeu e Mitterrand nem deve ter lido o texto. Ontem como hoje , quando essa “neurose religiosa” leva um grupo de ativistas italianos a querer banir a Divina Comédia, de Dante (escrita há 700 anos) porque a obra ofende homossexuais, muçulmanos e judeus, já não nos espanta que no Reino Unido tenham sido feitos pedidos de avaliação a textos considerados duvidosos e ofensivosentre eles livros de Jane Austen, Hemingway, Lewis Carrol ou George Orwell.

Estes avisos têm-se multiplicado em livros, filmes, séries de televisão, música e exposições de pintura, para nos proteger dos serviços de “repressão e de elevação imperial” que são evidentes na música de Bach. Segundo esses radicais a música clássica estará ao serviço do patriarcado, das aspirações de classe e de expansão colonial.

Todos estes casos introduzem um novo elemento que torna tudo mais grave: o direito de alterar os textos, as campanhas para corrigir os textos ou os combates pela interdição de textos passaram a ser assumidos por editores e detentores de direitos de autor.

Fim da citação de Francisco José Viegas.

O mundo está a ser confrontado com perigosas correntes de radicalização, de desinformação e de terrível assédio às mentes, principalmente, das novas gerações. Ainda um dia virá a sugestão dos maus procedimentos elencados nos nossos “Lusíadas “ e em muitas obras dos nossos mais consagrados autores. Se já hoje as imensas plataformas digitais conduzem a juventude para uma literacia sincopada, com abreviaturas indecifráveis para qualquer leitor normal, imaginemos o que acontecerá se os poderes instituídos, incluindo os editores, permitirem o desaparecimento dos milhares de autores e obras que têm sido as raízes educativas de todos os países. Li, há bem poucos dias , diretores escolares portugueses pedindo aumentos de prazos para trabalho com alunos nas áreas da expressão.

Não faltará muito tempo, se não chegou já, para que a próxima geração não seja capaz de escrever uma simples carta ( ou mesmo um e-mail mais longo e sofisticado). Nessa altura dar-se-á razão a Jorge Luís Borges – referido no início do texto – lembrando que, para este género de editores , “leitores sensíveis”, ativistas e ignorantes, “estamos todos mortos” .

Tenham coragem de reler os sonetos de Camões e qualquer dos policiais da Agatha Christie. Para que não fiquemos todos mortos.

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