M. C. ESCHER

Já lá vão muitos anos, durante os meus percursos de estudante, que “tropecei” numa composição gráfica de Escher e que fiquei a olhá-la, tentando interpretá-la. Era um desenho espantoso, com planos prováveis mas irreais, que nos obrigava a acompanhar linhas que se cruzavam ou se desfaziam, quase nos atordoando com a sua inviabilidade. Procurei saber o nome do autor, era o Escher, e o nome da gravura: Relatividade. Fiquei marcado por essa imagem, revia-a mentalmente, e percebi que, rodando-a, ela continuava a fazer sentido e a ter leitura, vista de cada um de três lados do quadrado em que se inscrevia. Fiquei com a ideia que o autor era um génio, talvez louco, mas confesso que o escasso tempo da minha vida de estudante, e depois profissional, não me foi permitindo mergulhar na obra e na personalidade do homem que, digamos, muito me intrigou. Vi na altura outras gravuras dele mas aquela Relatividade nunca mais a esqueci.

Em plena vida profissional da minha vida de engenharia fui um dia abordado por um fantástico colaborador desenhador-projetista do meu gabinete que me chamou ao seu estirador para me mostrar um desenho que tinha descoberto : a Relatividade do Escher. Esse desenhador, além de excelente profissional, tinha um toque de rebeldia intelectual, associando, à sua inteligência, fases periódicas de desgoverno e de inconstância comportamental que duravam, por vezes,  uma semana. A intimidade que já havíamos criado permitiu-me dizer-lhe por várias vezes, jocosamente, que aguardaria pela conclusão da sua “menstruação intelectual” para continuar o trabalho que teria entre mãos, coisa que acontecia sempre e com muita qualidade. Ora o desenho do Escher ia-lhe a matar, foi o que pensei. Era um louco a interpretar outra loucura. Não tive razão: era uma homem muito inteligente a mostrar-me uma obra inesquecível que também eu tinha gravada na memória. Foi nessa altura e por mérito daquele competente colaborador que vim a aprofundar a vida de Escher e a descobrir a sua obra. Algumas gravuras que arranjei (fotocópias,claro), dei-as ao Bettencourt (era esse o seu nome que não vejo razão para ocultar) o que veio, claro, a obrigar-me a ouvir as suas longas dissertações sobre as composições.

Passados todos estes anos retomo a vida e a obra de M. C. Escher ao visitar a exposição deste autor no Museu de Arte Popular, em Lisboa. Dizia Escher que “Somente aqueles que tentam o absurdo conseguem o impossível.”  Maurits Cornelis Escher nasceu na Holanda e viveu entre 1898 e 1972.  “Foi um artista, designer gráfico, intelectual  e matemático que se distinguiu pela sua fantasia genial.”  No seu trabalho viveu entre a exploração do espaço, da forma e o jogo das perspectivas.

Aqui fica uma imagem da tal Relatividade que ele muito glosou ao longo da sua arte

IMG_1079 de gravador.

Foi mestre na arte do “puzzle”, utilizou a geometria euclidiana sólida, a plana, a não euclidiana plana. Com todos esses artifícios geométricos e matemáticos interessou-se e realizou aquilo a que veio a chamar de “paradoxos percetuais”.  No final da sua obra “Poética”, Aristóteles afirma que “uma impossibilidade convincente é preferível a uma possibilidade inconvincente”.  É esta a linha sempre sugerida pela obra de Escher.

Foi durante as suas longas permanências e viagens ao sul da Europa, principalmente Espanha e Itália, que Escher desenvolve o seu imenso trabalho ao olhar para as colinas, montanhas e edifícios fantásticos que não existiam na sua Holanda plana. Em 1941, já casado e com um filho, instala-se na Holanda e passa a viajar todos os anos para Itália e outros países europeus. Foi, por duas vezes, nomeado cavaleiro do reino.

Este texto não pretende relatar a vida e a obra de Escher. Muito menos  aprofundar os conceitos científicos que presidiram à sua inconfundível obra conceptual e da magistral capacidade de gravador que apurou ao longo dos anos. Pretende-se apenas chamar a atenção para a excelente oportunidade de visitar, em Lisboa, uma exposição talvez irrepetível de um artista-cientista que nos foi, para os mais velhos, ainda contemporâneo. E quem, por acaso, não conheça a sua obra, estou certo que passará muito tempo a interpretar e a mergulhar no universo, ao mesmo tempo real e fantástico, que Escher nos legou. Façam uma visita.

2 pensamentos sobre “M. C. ESCHER

  1. Ainda sobre a arte de desenhar…! Quando escrevemos pressionados pelo tempo, corremos sempre o risco de interpretar deficientemente o que pensávamos dizer. E aqui, deixei uma lacuna no que diz respeito ao desenho técnico, mais propriamente ligado à arquitetura e à engenharia. E sobre isto, recordo os vinte e seis anos a interpretar plantas do Caminho de Ferro. Em boa parte, belíssimas obras primas desenhadas ainda sobre tela. Obras centenárias, guardadas avaramente num arquivo técnico, fechado com portas de alta segurança, que ainda hoje expressam com rigor, a sua realidade no terreno. Uma época, cujas telas ilustradas a Tinta da China e traçadas milimetricamente a tira-linhas, não aceitava rasuras. E, quanto de imaginação, um arquiteto ou um engenheiro tem que despender para a concretização de um edifício ou uma máquina, com toda a sua complexidade de movimentos e peças, senão traduzido sobre um desenho bem elaborado ? De facto, o desenho técnico, é uma arte escondida nos ateliers, nem sempre conhecida, talvez por não ser comercializável…!

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  2. Um assunto muito interessante. Fui e continuo a ser um apreciador de desenho artístico, sempre muito virado para o clássico. Direi, talvez por falta de imaginação ou não querer romper com o tradicional ! E, só não me dediquei a essa arte, porque nunca lhe vi um futuro fácil, ou o achasse bastante limitado para a época. Este nome, era-me completamente desconhecido, embora já tivesse visto alguns desenhos semelhantes, focando o absurdo, como por vezes o infinito ou ainda outros modelos insólitos. Eles surpreenderam-me sempre pela curiosidade e pela imaginação bastante fracturante dos seus autores, normalmente pessoas muito especiais e com muito interesse…!

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