PIGMALIÃO E GALATEIA

Nestes intervalos de tempos mais festivos e reflexivos por que temos vindo a passar, deu-me para folhear um velho livro de 1936 chamado “Os Deuses do Olimpo”, da autoria de João de Barros. Julgo que me desejaria encaminhar  para temas de desporto olímpico aos quais dedico atenção,  mas acabei por mergulhar, imagine-se, na deusa Afrodite (ou Vénus, como se queira) e para histórias encantadoras para as quais ela me arrastou.

Afrodite nasceu das ondas, da espuma alvíssima das ondas, à hora em que o sol nascente as vem tingir de ouro e rosa. No Olimpo os deuses quedaram-se a olhá-la, maravilhados. Nenhuma das deusas se lhe comparava em formosura, em graça, em perfeição e encanto. Logo lhe deram um trono de nobre lavor e sumptuoso arranjo. O condão de Afrodite era não só inspirar  amor, como recompensar a sinceridade de qualquer afecto leal. Foi o caso de Pigmalião, escultor famoso que habitava em Chipre e só pela sua arte e para a sua arte vivia. Entre as estátuas que amorosamente esculpia e cinzelava, uma criou certa vez, tão perfeita de linhas, tão maravilhosa de beleza, que o próprio Pigmalião se apaixonou por ela. O escultor passava horas e horas embevecido, contemplando a sua obra.  Abraçava-a, cingia-a nos braços fortes, acariciava-a com mãos trémulas, beijava-a sofregamente. Esforço inútil!  A estátua, à qual dera o nome de Galateia, nada a despertava da sua imobilidade e algidez. Afrodite apiedou-se do artista louco. E um dia em que ele mais uma vez apertava contra o peito, o peito silencioso da estátua, o marfim animou-se , tornou-se carne, sangue e nervos, e os lábios de Galateia  beijaram os seus, com indizível carinho. Milagre de ternura de Afrodite. 

Foi nesta história fantástica mas deliciosa que George Bernard Shaw baseou a sua peça Pigmalião a qual, em conjunto com outras obras deslumbrantes e muitas de polémica política, contribuiu para o seu Prémio Nobel da Literatura em 1925. Bernard Shaw morreu em 1950 e, anos mais tarde, em 1964, George Cukor realizou um filme extraordinário, My Fair Lady, baseado na mesma peça mas devidamente reformulada. Nunca me esquecerei desse filme, cujas cenas, frases e canções me são ainda completamente familiares pelo facto de, nos meus dédalos de vida, ter tido a oportunidade de escrever e adaptar toda a legendagem do filme para português. Vivia-se ainda a época da censura mas conseguiu-se fazer passar um termo mais ousado para a época e até aí nunca utilizado (cu….   imagine-se) sem que o censor reparasse,  no visionamento prévio.  O filme ganhou 8 óscares da Academia em 1965 e ainda hoje é, sem dúvida, uma obra de arte a ver e rever. Foi o que fiz neste período festivo. Meti-me na sala, pus o som bem alto e deliciei-me de novo.

Revi a maravilhosa Audrey Hepburn no seu papel de Eliza Doollitle, o fantástico Rex Harrisson como professor Higgins, Wilfried Hyde-White como coronel Pickering e Stanley Holloway como Alfred Doolittle, entre outros. minhabeldama_1964_poster

Este é um dos espectáculos maravilhosos e eternos (para quem gosta do género,claro) que não nos cansamos de recomendar. Bernard Shaw, com o seu humor e inteligência esfuziante, transformou a lenda do Olimpo, Pigmalião e Galateia, numa obra moderna e que ainda vai bem com os nossos tempos. Se tiverem curiosidade revejam o filme e não se esquecerão da sua última frase, dita por Henry Higgins:  “Where the devil are my slippers?”

Um pensamento sobre “PIGMALIÃO E GALATEIA

  1. Deliciosa, esta história de Pigmalião, tão apaixonado pela sua obra prima, de pedra fria e cor de marfim…! Sublime bondade de Afrodite, que ainda o tornou mais louco, aquele escultor de belezas, tão distantes do seu devotado amor….!
    Muita sorte teve ele, de não receber o castigo divino do Olimpo, por excesso de assédio, como agora se diz…!
    Desculpem-me, mas já confundo tudo, com tanta notícia desagradável que ouço sem querer ouvir, e ver sem querer ver. Fecho a televisão que se repete nas suas infindáveis reportagens com os afectos e os selfies, n vezes, pelos n Estúdios de TV. O noticiário do rádio despertador, que me acorda todas as manhãs à mesma hora, quando deixei de ter pressas para nada, a não ser quando combino algo, pois gosto de ser pontual. Os jornais que me inundam com notícias pela Net, e o telemóvel a despejar notificações, que depois tenho que ir eliminando. Tudo, porque insisto em estar actualizado, mesmo continuando a usar a antiga ortografia.
    Como foi feliz Pigmalião, que esculpia na pedra, a imagem da beleza que só os seus olhos podiam ver…!
    E Bernard Shaw, que tão bem adaptou este caso aos seus contos ? E o cinema inglês, com Pigmalion, interpretado por Lesly Howard, num filme interessantíssimo ainda a preto e branco, longe de ser musical, que eu vi, ainda jóvem, num cinema de reprise ? Mas o que ficou mesmo na memoria, foi o My Fair Lady, num belo colorido e canções lindíssimas, suponho, que ainda no saudoso Monumental…!
    Foi uma boa conversa…!

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