CUBA

Em Outubro de 2006 fui a Cuba pela primeira vez na vida, em representação de uma instituição à qual, à data, me encontrava ligado. Foi uma experiência extraordinária, rodeada de poesia, de lembrança de lugares já lidos, de tão lidos que acabei por reconhecê-los e ter a sensação de que os revisitava.  Foi tal a impressão  vivida que vim, mais tarde, a escrever um pequeno artigo sobre Cuba que incluí num também pequeno livro que publiquei com o título  “Garcia de Resende Tinha Razão”.

Os atuais movimentos políticos de Cuba e a designação de um novo Presidente, sem ter apelido Castro, levou-me a reler o texto que só escrevi em 2015, sobre o que tinha visto em 2006. Vou transcrever partes desse texto para os poder enquadrar com o que possa dizer agora sobre essa mesma Cuba. Aqui vai.

“Ela ainda existe. Está lá. Existe. A Havana de que todos falamos , há muitos anos, a Havana da Cuba revolucionária, a cidade de encantamentos, de perfumes, de um povo alegre e contagioso.  La Habana existe mas entristece-nos. A cidade tem o perfume de outrora, das descrições de Hemingway, dos relatos de Eça, mas não tem, como se deveria esperar, o avanço e o progresso que qualquer cidade deste mundo caribenho deveria e merecia ter. ………………………………………………………………………………………………………………………………………………..

A chegada ao aeroporto alerta-nos e avisa-nos de tudo e do cuidado que devemos manter na nossa estadia. Depois de um longa fila de espera chegou a minha vez de abordar o controlo de passaportes. Entreguei-o e fiquei à espera. A polícia (eram quase todas mulheres) olhou-me e remirou-me, passeando o olhar entre a a minha cara e o passaporte, uma série de vezes. A sua expressão era militar e dura. Apercebi-me que, por traz de mim,  se encontrava um espelho inclinado para o qual ela olhava, tentando perceber se nas minhas costas algum sintoma denunciava a presença de qualquer objeto estranho não declarado. O exame continuava. Martelava nas teclas de um velho computador já em desuso, suponho que com o único objetivo de me preocupar. Duvido que a máquina funcionasse. … Já tinham passado uns longos minutos. De repente, diz-me: “Bienvenido a Cuba”!. Carregou num botão oculto, a porta deu um estalinho e eu pude passar com a porta a fechar-se logo de seguida.  Tinha entrado, estava em La Havana! 

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Entre os trabalhos que lá me levaram tive tempo para visitar Havana e  uma pequena parte de Cuba.  Escrevi:   “Ainda hoje perduram as figuras históricas de Fidel, com barba e fumando o seu “havano”, de Che com a sua boina, numa fotografia tirada por acaso pelo francês Cobe, numa manifestação popular. Nem aí a revolução progrediu, se atualizou.  Um percurso pela cidade, desde a zona de Miramar (onde se encontrava o meu hotel) passando pela zona mais antiga de Vedado, até ao Centro Histórico da Cidade Velha, é uma experiência aterradora e, ao mesmo tempo, aliciante. Os edifícios baixos, tipo colonial, são os mesmos de há 50 anos, que vemos nos filmes , sem qualquer manutenção e, portanto, num estado de degradação deplorável. Os canais de televisão local deixam ver apenas os programa e manifestações do partido comunista no poder. Há, no entanto, nos hotéis  para turistas , toda a panóplia de canais internacionais a que os nativos, evidentemente, não têm acesso.

Depois da morte de Fidel, o seu irmão Raul assumiu a presidência e os destinos do país. Escrevi em 2015:  “Obama já conseguiu restabelecer as relações diplomáticas com Cuba. As embaixadas já foram reabertas. Os trabalhos de um novo relacionamento já se iniciaram. Vão levar tempo. Ainda teremos oportunidade de ir conhecer a linda La Habana do presente, antes que o investimento estrangeiro possa vir a retirar o perfume maravilhoso da cidade.

Infelizmente o novo presidente americano veio interromper todos os progressos que tinham sido alcançados. Trump não está, realmente, preparado para o cargo que desempenha. Não admira, portanto, que o novo Presidente de Cuba, Miguel Diaz-Canel, designado e eleito pelo próprio partido a que também pertence, tenha repetido as frases de sempre : “Liberdade ou morte! Socialismo ou morte!”

Diaz-Canel nasceu a 20 de Abril de 1960 (mais um para a minha lista dos nascidos a 20 de Abril), depois do início da revolução.  É engenheiro eletrotécnico como é também, por coincidência,  o Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres. Ninguém duvida da sua rigorosa formação político-partidária, caso contrário não teria sido escolhido por Raul Castro. Foi professor universitário, contactou com universidades estrangeiras e tem mantido relações com instituições exteriores que o conhecem bem. Já foi visitado por Nicolás Maduro, da Venezuela, para se garantirem, reciprocamente, entendimento político,  mas mais como tábua de apoio (suspeito que não de salvação) para o inenarrável e brutal venezuelano.

Quer Raul Castro, quer Trump, hão-de desaparecer do poder. Os europeus, mais do que os sul-americanos, hão-de alinhar-se com os desenvolvimentos futuros de Cuba, mesmo mantendo o seu ideário político. Mas Diaz-Canel é um homem de outra geração, com outro tipo de cultura, e o povo cubano (em Cuba e no exterior) não se cansará de se fazer ouvir. E, como sabemos, estas mudanças sempre acontecem, mesmo lentamente. Diaz-Canel de 2018 não será o mesmo Diaz-Canel de não sei daqui a quantos anos. E até lá, sem Trump e com uma Europa mais retemperada, Cuba poderá ser um país de “study case”. Será que Diaz-Canel vai progredir com os tempos, mesmo mantendo vivas as ideologias oficiais? Na China está a ser assim… E a Europa? Arrumar-se-á? Os desarrumados atuais que virão a fazer? E os aparentemente arrumados como se irão comportar? Temos por aqui muitas incógnitas. É um algoritmo complicado. Por tudo isto, vamos ter que esperar. E, entretanto, vamos olhando para Cuba. Esperemos.

3 pensamentos sobre “CUBA

  1. Cuba, uma revolução de paixões, ou o esvaziamento de uma utupía…! Não sei se viverei o tempo necessário para o saber…! Fico-me com um ” Cuba Livre…! Tchin Tchin !

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  2. Gostei imenso de ler este artigo sobre Cuba. Amigos meus contatar-me coisas extraordinárias sobre Cuba, mas nunca tive a oportunidade, por motivos vários, de a visitar, e penso que jamais o farei, com muita pena minha.
    Por todas estas razões, foi de facto com muito interesse que li o artigo. Procurarei aprender mais sobre Cuba, porquanto já li diversos artigos sobre a sua vida, especialmente a sua política revolucionária, que me encantaram ! Obrigado por mais este trecho sobre sua história !

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  3. Excelente, e muito actual es artigo sobre Cuba. Nunca por lá andei, já tive várias tentações mas, no final, nunca fui. Como muitos, estou cheio de curiosidade em ver como a situação irá evoluir face à entrada em jogo de uma nova geração que não teve nada a ver com a “Revolução”

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