AS NOSSAS ETERNAS MIGRAÇÕES

Desde sempre que os portugueses tomaram em suas mãos os seus próprios destinos. A pequenez do país, a debilidade da sua população ao longo dos séculos, a escassez de meios de produção e subsistência, as atribulações dos chefes designados (monarcas ou presidentes), tudo isto criou nas populações a ambição ou, na maior parte das vezes, a necessidade de sairem, de migrarem para outras paragens onde, de uma forma geral, foram deixando traços de simpatia e de boas ligações locais. O colonialismo que, de acordo com os tempos, sempre fomos impondo,  acabou por ditar o destino de muitas gerações e de muitas famílias. A fase final deste colonialismo, principalmente na maior parte do século passado, foi muito dolorosa. As pessoas já não iam se queriam, aventurar-se de sua livre vontade. Passaram a ser obrigadas a ir em serviço militar para defender o que já não tinha defesa. Só escapavam a esse tormento os que sempre escapam a todos os tormentos. Põe-se aqui a questão da governança do país e os males que, impunemente, daí decorreram. Recorro, com a devida vénia, à leitura que fiz há poucos dias do artigo de um amigo (C. Matos Gomes) que, com imenso humor, descreve uma pequena história engraçadíssima. Diz ele:

Os triunviratos que governam Portugal. No início de 1961, o então subsecretário de Estado norte-americano George Ball veio a Lisboa transmitir a Salazar a posição da administração Kennedy quanto à necessidade de Portugal admitir o princípio da independência das colónias. Salazar terá ouvido e respondido que os americanos não lhe mereciam grande consideração. George Ball saiu confuso de S. Bento e terá ido pedir conselho ao velho embaixador britânico em Lisboa (um diplomata experiente em fim de carreira), relatando-lhe a lenga-lenga de Salazar que terá terminado com a afirmação de nada poder fazer quanto às colónias. Foi esta impossibilidade de um ditador exercer o poder que mais perturbou o diplomata americano.  Afinal quem mandava? O embaixador de Sua Majestade terá sorrido e explicado pacientemente: Assim era, de facto. Portugal não era governado por Salazar, mas por um triunvirato constituido pelo Infante D. Henrique, pelo desaparecido Rei D. Sebastião e pela aparecida Senhora de Fátima, de que Salazar era apena um mero executante de ordens, um oficiante.

Já não será assim hoje mas os portugueses continuam a investir os seus futuros em paragens distantes, já não tão distantes como eram dantes, mas apostando numa melhoria de vida que, na maior parte dos casos,  localmente não conseguem. O país mudou muito e a população já se convenceu que só com cada vez mais altas aptidões poderão fazer face aos seus futuros. E com as suas carteiras de conhecimentos, nas mais diversas áreas da vida, lá vão para outros países, terras mais ou menos distantes onde ganham experiência e onde, como tem ficado provado, deixam, com muita frequência, um rasto muito saboroso do seu prestígio e das suas capacidades. Por outro lado, Portugal tem recebido de forma sensata alguma imigração qualificada que tem permitido renovar hábitos, criar pontes, entrelaçar amizades, em resumo, participar no novo mundo. Queixamo-nos que a nossa população tem diminuido, a média etária de vida é cada vez mais longa e assustamo-nos com a redução prevista da nossa gente. Mas também há quem pergunte se desejamos ser muitos mais, se o país estará preparado para populações gigantescas. Na verdade, ao longo da nossa História, nunca fomos tantos como se diz que gostaríamos de ser. Países bem mais ricos que o nosso têm populações equivalentes ou menores. Como se costuma dizer o nosso “petróleo” é a educação, a cultura, a troca de saberes.

Os que partiram pensam sempre em voltar. Quase todas as nossas famílias têm jovens “expatriados”, que estudam, trabalham e vão vivendo mais ou menos felizes. Um dia voltarão para se confrontarem com outros tipos de “triunviratos”. Não são os mesmos referidos pelo embaixador britânico do tempo de Salazar , mas não deixam de nos convocar para um alerta permanente quanto ao poder e como se infiltram na sociedade. Já é vulgar as famílias portuguesas falarem, quase quotidianamente, com os seus filhos ou netos através do “face time”. São estas as migrações dos nossos tempos. Mais modernas, mais sofisticadas mas sempre na linha das nossas tradições ancestrais. Mas que, sejam, agora, para o bem do nosso país.

 

2 pensamentos sobre “AS NOSSAS ETERNAS MIGRAÇÕES

  1. Quando, nos dias de hoje, passeamos pelas ruas da baixa de Lisboa ou do Porto, cruzamo-nos com centenas de estrangeiros que nos procuram, curiosos da nossa história, da nossa comida, dos nossos monumentos, bem diferentes dos que procuram as nossas praias. Muito dessa curiosidade, estou certo, se deve ao contacto com os nossos emigrantes que se espalham por toda esta Europa, na ânsia de viver um futuro mais facilitado.
    E toda este quase êxodo, como se sabe, nunca foi assim tão simples, muito longe do bom acolhimento actual, como nos parece acontecer nesta Europa mais desenvolvida. Uma emigração com outro nível cultural e técnico, tão apreciado pela sua dedicação e cordialidade.
    Embora me queira esquecer muitas vezes, também fui emigrante ! Com carta de chamada, sofrendo as inúmeras dificuldades em obter um Passaporte, onde a palavra ” emigrante “, nele inscrita, me fazia baixar a cabeça, pensativo, quase que humilhado.
    Uma viagem, definitiva, para o Brasil, que a memoria dos meus 16 anos, nunca mais deixou esquecer. Muito aprendi durante aqueles longos quinze dias de viagem, no velho Serpa Pinto…! Navio ronceiro, nunca ultrapassando os 11 nós…! Era o navio da saudade…! Nele, sentado nos Decks, a querer gozar um fresco que já não existia, ou no Salão Nobre, ouvi com atenção, imensas histórias de sucesso pelos próprios autores, já mais libertos de uma vida pobre que tinham deixado para trás, há bem mais de quarenta anos. E assim conheci, num franco convívio com tantas pessoas felizes, rodeadas de suas famílias brasileiras, de regresso a casa, após uma visita às suas cidades e aldeias, para lhes mostrar as suas origens, não sem uma pontinha de vaidade.
    Mas, nessa mesma viagem, como em dezenas de outras, havia uma 3ª Classe, onde se acomodavam outras pessoas ainda sem histórias para contar. Talvez, a remoer um passado de dificuldades que queriam esquecer rapidamente, a misturar-se com as saudades dos seus familiares, sem ter a certeza de poder voltar um dia, com as suas novas famílias, como os outros da 1ª Classe…! Seriam outras histórias ainda por realizar.
    E era assim, a vida de emigrante, de incertezas, nem sempre de sucessos, tão longe das suas aldeias, apenas com passaporte de emigrante, muitas vezes sem regresso, juntando a pobreza anterior a uma nova pobreza das favelas e do mato…! Ferreira de Castro, conheceu bem esse mundo e descreveu-o no seu livro ” A Selva “, com toda a sua crueza…!
    Também, longe já vai o tempo em que acreditava, que tudo iria mudar com o 25 de Abril, com novas oportunidades, como se vivia na Europa. Muito se modificou, mas…!

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  2. Um texto excelente àcerca de um tema estimulante e muito actual.
    Hoje em dia muitas famílias portuguesas têm elementos seus no exterior. A enorme maioria vai seguramente regressar. Melhor formados, com mais experiência, mais mundo, e com ligações pessoais normalmente muito úteis profissionalmente depois.
    E enquanto estão fora, nos locais onde se encontram, integram-se facilmente nas comunidades portuguesas ali residentes, valorizando-as.

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