FÍSICAS DO PATRIMÓNIO PORTUGUÊS

 

Sempre apreciei a Arquitetura. Convivi com muitos arquitetos e tive imensas oportunidades de os ver imaginar, conceber, rascunhar e dissertar sobre os esquiços que iam aparecendo. Durante muito tempo em papel vegetal, mais tarde já em computador. Havia os que eram mais hábeis a planear espaços, outros que se deleitavam com os projetos de pormenor. Muitas vezes senti a nostalgia de não ser arquiteto  (porque nunca fui mau a desenho) mas ter-me-ia faltado, decerto, o génio inspirador que transforma uma ideia ou um desenho rabiscado,  numa obra esbelta, elegante, prática, eficaz, como convém a qualquer obra de arquitetura.  Assisti e participei também em intervenções melindrosas e difíceis em edifícios antigos,  para os quais era necessário encontrar soluções adaptadas aos estilos passados mas, muitas vezes, arriscando apontamentos de modernidade. Falo, pois, como se deve notar, com encanto,  da Arquitetura e dos arquitetos. Para além das exigências dos planos diretores munipais e das terríveis burocracias que sempre os martirizam, os arquitetos têm, a maior parte deles, a genialidade de conceber a obra que se pretende para o local, deixando uma marca perene da sua imaginação. Arquitetura é arte em toda a plenitude do termo e seria muito bom que, em muitos casos, nos pudesse ser explicada a obra que contemplamos. As suas razões e os porquês das soluções. E o mais curioso é que, para um mesmo espaço ou enquadramento, arquitetos diferentes encontrem soluções também diferentes. Que cada um deles explica com igual rigor e convicção. É isso a arte. A tela é a mesma mas o resultado final é muitas vezes oposto não deixando de ser sedutor em qualquer dos casos.

Tudo isto a propósito de uma exposição que visitei recentemente no Museu de Arte Popular, designada por Físicas do Património Português. O nome intrigou-me mas acabei por o perceber bem durante a visita. É uma exposição promovida pela Direção-Geral do Património Cultural, ao terminar o Ano Europeu do Património Cultural (2018), incidindo sobre as “intervenções contemporâneas no património edificado e as suas implicações na identidade e na memória”. O curador da exposição e a equipa técnica envolvida resolveram conceber a exposição repartida em quatro grupos essenciais: o Líquido, o Sólido, o Gasoso e os Outros Estados da Matéria. No chamado Estado Líquido são-nos apresentadas plantas, desenhos e fotos de intervenções em património edificado. Incluem-se neste caso os trabalhos realizados  no Convento de Jesus em Lisboa, na Igreja de S. Francisco de Évora, no Teatro Luis de Camões em Lisboa (Ajuda), na Sede do Banco de Portugal em Lisboa, no Teatro Thalia também em Lisboa, nas Estufas do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, no Solar da Porta dos Figos em Lamego, na Igreja e Torre do Clérigos no Porto, no Reservatório da Pasteleira também no Porto, na Casa Museu de Vilar na Lousada, no Museu Abade Pedrosa que faz parte do Mosteiro de São Bento e  na Biblioteca Municipal de Caminha.

No chamado conjunto Sólido são-nos apresentadas maquetes e modelos de diversas áreas de intervenção: Sagres, Cabo Espichel, Evoramonte, Torre das Águias de Mora, Alta de Coimbra e Forte da Ínsua em Caminha. No conjunto Gasoso somos envolvidos por imagens filmadas, em movimento, na Baixa de Lisboa e na Baixa do Porto.

Todos estes grupos de trabalhos são de arquitetos portugueses cujos nomes me escuso de referir para motivar os nossos leitores a irem ver a exposição e comprar o catálogo que é uma boa peça de referência e não é caro. Não quero, no entanto, deixar incompleta esta descrição sem abordar Os Outros Estados da Matéria, onde somos confontados, no nosso percurso, com painéis video em que  diversos especialistas nos falam (com legendas em inglês) sobre a complexidade destas intervenções e da sua influência no nosso ambiente e na disposição das populações para as apreciarem devidamente. Neste caso,  acho interessante mencinar os nomes desses especialistas: Alexandre Alves Costa (Arquiteto), Walter Rossa (Arquiteto), Raquel Henriques da Silva (Historiadora), Rui Tavares (Historiador) e Paulo Pereira (Historiador).

Trata-se, em minha opinião, de uma exposição valiosíssima que está aberta até Março e que vale a pena visitar. Mesmo sem ser arquiteto.  Só houve uma coisa que me preocupou: na manhã em que lá estive era o único visitante no museu. A minha digressão, sem companhia ao longo de todas as salas e corredores,  deve ter levantado suspeitas  de segurança ou, sabe-se lá, de vandalismo, porque a certa altura senti-me seguido por uma das empregas da portaria. Com quem, aliás, meti conversa perguntando-lhe se a exposição estava a ser muito visitada. Respondeu-me que sim, principalmente por alunos de arquitetura. Mantive, claro, a minha preocupação porque entendo que a exposição merece ser conhecida e visitada pelo público em geral.

Por isso escrevo este texto. Vão ao Museu de Arte Popular enquanto a exposição lá estiver (o preço da entrada é acessível…)

2 pensamentos sobre “FÍSICAS DO PATRIMÓNIO PORTUGUÊS

  1. Um assunto apaixonante. A simples forma de transpor para a tela, uma ideia ou uma imagem, respeitando a natureza e o ambiente, concretizando-a com a beleza da arte…! Uma visita a realizar, logo que seja possível, pelo gosto de apreciar os estilos, como registo efectivo de muitos sonhos, nomeadamente pela arquitetura, sempre varrida dos meus horizontes…!

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