A MAGIA DOS SENTIDOS

Aproveitando a tolerância que me é concedida pelas regras do confinamento fui hoje, à hora do sol, dar um pequeno passeio pelos frondosos jardins que estão perto da minha casa. Os médicos especialistas recomendam várias coisas para preservar a saúde dos cidadãos em confinamento.  Principalmente dos cidadãos mais idosos, grupo no qual me encontro, apesar de razoáveis e generosas tentativas para o disfarçar. Mas o BI (ainda não tenho Cartão de Cidadão) não engana.  E entre as muitas recomendações há uma que prevê a necessidade de dar passeios, claro, não muito longos e, se possível, deixar-se banhar pelo sol. Quando o há, claro, e hoje havia.

Foi um passeio agradável e compensador. Olhei à minha volta e vi (porque às vezes olhamos e não vemos) árvores enormes e frondosas, arbustos esbeltos e muito verdes, flores, muitas flores, a natureza, enfim, em todo o seu esplendor. E vi também um banco, imagine-se, ali mesmo ao pé. E sentei-me. Ao sol, como mandam os médicos. E realmente devem ter razão porque o  calor entranhou-se-me, deu-me uma agradável sensação de distanciamento e permitiu-me ouvir o que me rodeava. Não só ver, mas ouvir. Estava sozinho, sem humanos à vista,  e apenas me apercebi do ruído das folhas das árvores, do intenso chilrear de muita passarada e até da aproximação de um pato lindíssimo (muito colorido, igual a um que tenho em casa em madeira) que pousou não muito longe, me olhou desconfiado, grasnou simpaticamente, deu duas voltas sobre si próprio e ali ficou. Continuei ao sol, a ouvir a natureza e a olhar de soslaio para o pato. E a pensar, claro, aproveitei o isolamento não confinado para pensar. De repente, o pato achou que já não tinha mais nada a fazer ali e foi-se embora, voando para o seu local de estada habitual. Desejei-lhe boa viagem com desejos de o voltar a ver.

É assim a natureza quando a deixamos em paz. Sobrevive, alinda-se e fala connosco. Só é preciso que a ouçamos,  como hoje aconteceu. O chilrear da passarada, o folhear das árvores e o voltejar incerto de muitas borboletas que por ali andavam, deram-me a certeza de que o mundo está vivo, está ali, à espera que o possamos ouvir e compreender. Ah! é verdade:  que desse por isso não me encontrei com o famoso vírus. Coisa que só terei por seguro, segundo os “espertos”, daqui por 14 dias. Mas até lá não esquecerei tudo o que vi e ouvi nesta pequena caminhada.

Porque é que esta simplicidade da natureza não se repercute na nossa vida em sociedade? Se calhar porque essa tal sociedade somos nós. Com os nossos caprichos, os nossos anseios, os nossos desejos de supremacia, a nossa falta de solidariedade genuina, a nossa proverbial dificuldade em nos entendermos uns com os outros. Entre nós, pessoas, isso tem-se tornado talvez mais fácil, mas entre países, pertencentes a grupos, em princípio amigos, nos quais nos incluimos,  as coisas são logaritmicamente mais complexas. E até para nos ajudarmos mutuamente nesta questão do vírus (o tal com que eu hoje não tropecei) encontramos dificuldades e desalinhamentos. Mas o “bicho” fez-nos tanto mal, a todos, sem culpa de ninguém, que talvez a “A Magia dos Sentidos” nos faça encontrar, também a todos, a réplica de solidariedade que a Natureza tão bem nos transmite quando não estamos por perto.

Quando comecei a escrever este texto ia fazê-lo em verso. Mas arrependi-me e não fui capaz.  A fruição sensorial da Natureza não se compaginou com a difícil realidade que estamos a viver. Ficará para a próxima.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um pensamento sobre “A MAGIA DOS SENTIDOS

  1. Manuel José, o teu belo texto sobre a Natureza fez-me lembrar o Guardador de Rebanhos do Alberto Caeiro. No sítio onde vivo, com muitos espaços verdes, basta-me ir à varanda para ouvir os pássaros chilrear. O desagradável são os pombos que nem cantam nada de jeito nem respeitam as mínimas regras de higiene..

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